
SONETO DE SEPARAÇÃO
De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.
De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.
De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.
Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.
As vezes penso que Vinicius de Morais conhecia a história da minha avó... e por isso escreveu o poema acima...
Meu avô materno ficou paraplégico aos 30 e poucos anos... um erro médico o deixou imóvel tão cedo! Com tanta coisa ainda pra viver!
Eles tiveram apenas 3 filhos que logo se casaram.
Ficaram os dois ...pareciam dois passarinhos. Minha avó foi uma guerreira: aprendeu a dirigir para levá-lo às viagens, aos passeios. Um amor sereno, um exemplo de perseverança e vontade de viver.
Não foi fácil, minha "voinha" aprendeu a arte de fazer pão e administrar o comércio que sustentava a familia: Padaria NOssa Senhora Aparecida.
Uma mulher forte que amava aquele homem com a certeza de que o seu propósito era além do "amar até que a morte o separe"...
A doença foi transformando aqueles sorrisos em dores e angústias... a cada dia, o corpo do meu avó paralisava uma parte. Os olhos azuis foram perdendo o brilho e ele foi morrendo aos poucos.
Hoje eu sei que existe uma doença chamada "dor da saudade". Minha avó morreu de saudade , pouco tempo depois da morte do meu avô... como se ela tivesse a mesma doença dele... a saudade foi paralisando seu corpo aos poucos, até que um dia, ela fechou os olhos. Seu semblante permaneceu sereno... ela morreu sorrindo, como se dissesse "estou indo meu amor, para cuidar de você" , era o que ela sabia fazer de melhor: cuidar do seu amor, seu companheiro.
Ela se foi como um passarinho... e
"de repente da calma fez-se o vento
que os olhos desfez a última chama..."

2 comentários:
belíssima história!
Que lindo, Tânia!!!
Quase pude ver a serenidade de sua avozinha se entregando nos braços da morte com a certeza de estar indo pra perto do seu amor...
Linda imagem!
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