sexta-feira, 28 de agosto de 2009



Sei que a vida é assim... existem coisas que não são para entender e sim para guardá-las na memória.
Lembro-me como era mágico o dia em que eu visitava a casa do meu avô paterno. Quando minha mãe falava que iríamos visitá-lo,eu pulava, sorria... ainda era uma criança e diferente dos meus irmãos eu trocava qualquer desenho na TV para ficar embaixo do pé de cacau, ouvindo meu avô contando histórias.
Sim, era mágico!
A gente chegava lá e vovÔ vinha me abraçar primeiro... era um amor recíproco. As palavras ainda moram no meu coração... "minha loirinha , você veio!"
Meu avÕ era um homem sofrido, sem muitas oportunidades... e um homem rico de sabedoria... contava histórias que nunca li em livros, ele as inventava e criava um mundo de fantasias em suas palavras.
Era um pé de cacau que ele mesmo plantou, quando veio de MOrtugaba/BA.
Meu lugar era o principal: ao lado de vovÔ. Ele abria o fruto com um canivete que tinha na cintura e destribuía os gomos
e ficávamos ali...saboreando o cacau e ouvindo seus contos.
Era o momento em que ele sorria e colocava pra fora toda sua alma.

Hoje eu entendo como aquilo tudo me envolveu por dentro... como uma sementinha. Somos parecidos demais... e quando escuto as vozes do meu silêncio, sinto um aperto no peito... uma vontade de abraçá-lo outra vez e me sentir pequena ao seu lado...
saudade do meu avÔ Saturnino Alves David.

terça-feira, 25 de agosto de 2009




"É preciso ter coragem para levantar e falar,
porém
é preciso muito mais coragem
para sentar e apenas ouvir..."
Recordando...
Lembro a primeira vez que entrei na "tal sala dificil"...
Fui acompanhada por um policial que fazia um projeto de socialização com os alunos. Depois fui saber que nas outras salas, não acontecia o projeto...seria então, um privilégio daquela sala?

O policial falava alto e usava uma voz forte, andava de um lado para o outro... os meninos ficavam ali, parados... olhando entre si. Eles já se comunicavam por olhares.
Percebi um olhar mais frio que os outros... um rosto me fitava: Iago!Ele me olhava nos olhos e aquilo me incomodava de início.
Quando saí da sala, a supervisora veio com umas fichas... tinha de tudo lá : aluno que repetira a série mais de 5 vezes, aluno com necessidades especiais, alunos traumatizados , alunos agressivos, aluna que se vestia de aluno e virce - versa. Fiquei ouvindo as orientações e lendo aqueles "rótulos".
Cheguei em casa aquele dia pesando... "e agora? Como vou fazer para conhecê-los de verdade? Como vou tirar de dentro deles o que eles têm para me oferecer?"
Procurei ajuda , liguei para minha Orientadora particular: minha mãe. Uma mulher pedadoga e acima da sua profissão, uma mãe maravilhosa... humana e capaz de enxergar através dos olhos. A resposta foi simples : respeite os alunos e eles te respeitarão. Escute seus alunos e eles te escutarão, fale olhando nos olhos (era a parte mais dificil) e seja firme.
Foi ali que tudo começou...
Respeitei cada um... suas limitações, seus desejos , seus traumas, seus sonhos, dificuldades e problemas e assim eu fui respeitada . Nunca houve agressões.
Quem passava lá fora, ouvia nossas risadas... ou via os olhos brilhando nos momentos que eu contava histórias ou ficava no meio deles para ouvir as suas próprias histórias.

Hoje, ainda me emociono ao lembrar do dia em que Iago me disse : " meu pai e minha mãe estão presos, fessora, por isso eu moro no abrigo. Meu pai é traficante e minha mãe ajuda ele... as pessoas pensam que sou marginal também, mas eu não sou. A gente escolhe o que vai ser e eu não quero ser como eles..."
E até hoje, eu chego na sala , escrevo uma frase junto com a data, no canto esquerdo do quadro : " vida é feita de escolhas ". Sei que não posso mudar a realidade que aqueles meninos vivem agora ,mas sei que vão colher bons frutos .
Consegui tirar os rótulos, mostrei para a comunidade escolar que eles possuem essência por trás dos olhos sofridos. Fizemos várias exposições de trabalhos: Ilustrações de livros literários, poemas, cantos,paródias,peças teatrais, jograis,jornal,cartas,murais...
fizemos a diferença naquela escola e hoje aqueles alunos são respeitados!
E aquele que era considerado o mais agressivo... Wanderson, colhe flores do mato, no percurso da escola , para enfeitar os meus cabelos.

domingo, 23 de agosto de 2009




Yara era uma menina calada, olhos grandes e sem brilho...
Naquele dia, Yara estava sentada na sua janela azul... com os olhos no horizonte e sorria para todos que passavam lá. Era estranho... uma menina de vestido verde, sentada na janela azul, com as pernas encolhidas, vendo a vida passar.
As pessoas estavam sempre muito ocupadas e passavam sem perceberem a fragilidade que escondia por trás daquele sorriso de Yara.
Mas um anjo veio, talvez por sentir as mesmas emoções, viver os mesmos sentimentos de solidão, parou e perguntou:
"- Por que você tem olhos tristes?"
A menina sorriu: "- não são tristes, são olhos voltados para o horizonte".
O anjo não se conformou e tentou explicar que as coisas... a vida, poderiam ser vistas e sentidas! Que para chegar ao horizonte é preciso caminhar... seguir sempre em frente.
Todos os dias, o anjo aparecia e ficava ali conversando com a menina da janela... era um "tempo de cativar" , aos poucos Yara se entregava à magia daqueles momentos. Sim, o anjo, agora conhecido como Gué Pomerode, falava palavras mágicas.

Era um dia de inverno quando o anjo chegou e não encontrou a menina na janela...
ficou ali parado, sem entender...sentiu frio.
Mas logo entendeu tudo ... pela primeira vez Yara havia saído do seu posto azul ... e o anjo sorriu.
O corredor era escuro e gelado, havia vozes misturadas à músicas .Yara sentia muito medo..."talvez fosse melhor voltar". Mas não recuou e tudo começava ali... naquele momento.
A menina da janela estava a poucos metros da porta... talvez tenha um jardim florido e cheio de borboletas coloridas. Era preciso seguir, não mais ver a vida pela janela e sim sentir a vida lá fora!
O inverno passou e veio a primavera...
Yara conseguiu abrir a porta, mas não conseguiu ver as flores e nem as borboletas. A menina ficara muito tempo no escuro e agora... vendo aquela luz consumindo seus olhos, não conseguia enxergar.

O anjo ficou lá, com as mãos estendidas e as asas preparadas para alçar voo... chamando por Yara... mas a menina,
a menina ainda sonha.
Gué pomerode ainda pode ouvir os gritos da sua menina , sua loirinha.... pedindo por ajuda, mas há espinhos entre as flores e Yara precisa vencê-los!

sábado, 22 de agosto de 2009



Um ser que sonha...
Vive dentro de mim uma menina que sonha
uma menina que embala as bonecas e sorri quando recebe um beijo de boa noite... uma menina que sonha com o próximo Natal.

Vive dentro de mim uma garota que sonha
uma garota que veste o uniforme e sorri quando recebe um "oi" tímido do colega de classe... uma garota que sonha com um primeiro beijo.

Vive dentro de mim uma mãe que sonha
uma mãe que embala o filho e zela pelo seu sono, sorri quando assiste as apresentações escolares... uma mãe que sonha a vitória do seu filho.

Vive dentro de mim uma mulher que sonha
uma mulher que penteia os cabelos e colore a boca com um batom e sorri quando sente os olhos de desejo fitando os seus olhos... uma mulher que sonha encontrar alguém que a faça feliz.

Vive ... aqui dentro
uma menina, garota, mãe, mulher!
Vive um ser que sonha...

SONETO DE SEPARAÇÃO

De repente do riso fez-se o pranto

Silencioso e branco como a bruma

E das bocas unidas fez-se a espuma

E das mãos espalmadas fez-se o espanto.



De repente da calma fez-se o vento

Que dos olhos desfez a última chama

E da paixão fez-se o pressentimento

E do momento imóvel fez-se o drama.



De repente, não mais que de repente


Fez-se de triste o que se fez amante

E de sozinho o que se fez contente.


Fez-se do amigo próximo o distante

Fez-se da vida uma aventura errante


De repente, não mais que de repente.


As vezes penso que Vinicius de Morais conhecia a história da minha avó... e por isso escreveu o poema acima...
Meu avô materno ficou paraplégico aos 30 e poucos anos... um erro médico o deixou imóvel tão cedo! Com tanta coisa ainda pra viver!
Eles tiveram apenas 3 filhos que logo se casaram.
Ficaram os dois ...pareciam dois passarinhos. Minha avó foi uma guerreira: aprendeu a dirigir para levá-lo às viagens, aos passeios. Um amor sereno, um exemplo de perseverança e vontade de viver.
Não foi fácil, minha "voinha" aprendeu a arte de fazer pão e administrar o comércio que sustentava a familia: Padaria NOssa Senhora Aparecida.
Uma mulher forte que amava aquele homem com a certeza de que o seu propósito era além do "amar até que a morte o separe"...
A doença foi transformando aqueles sorrisos em dores e angústias... a cada dia, o corpo do meu avó paralisava uma parte. Os olhos azuis foram perdendo o brilho e ele foi morrendo aos poucos.

Hoje eu sei que existe uma doença chamada "dor da saudade". Minha avó morreu de saudade , pouco tempo depois da morte do meu avô... como se ela tivesse a mesma doença dele... a saudade foi paralisando seu corpo aos poucos, até que um dia, ela fechou os olhos. Seu semblante permaneceu sereno... ela morreu sorrindo, como se dissesse "estou indo meu amor, para cuidar de você" , era o que ela sabia fazer de melhor: cuidar do seu amor, seu companheiro.


Ela se foi como um passarinho... e

"de repente da calma fez-se o vento

que os olhos desfez a última chama..."


sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Hoje eu tive um momento especial comigo mesma,encontrei uma coletânea do Legião Urbana...
160 músicas de puro êxtase!
Foi um momento só meu...
A cada música, uma lembrança... parei no meio do quarto e não consegui me mover.
Olhei no espelho e percebi o quanto eu me perdi em mim mesma.
De tanto gritar em silêncio...
De tanto correr sem sair do lugar... acabei me prendendo.

Mas não será mais assim!
Sairei do casulo agora, porque a primavera esta chegando e não quero perder o voo.